Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um dia de comemoração em Blessed Hill


Era uma tarde bem diferente daquelas típicas em época de colheita do algodão. Todos os negros daquele humilde vilarejo estavam reunidos e felizes festejando ao som de palmas, gritos e um velho banjo. O dia em comemoração era aquele em que seus filhos finalmente puderam colocar os pés onde os outros garotos, brancos, sempre puderam por algum motivo.

Apertadas naquele salão dezenas de vozes em coro cantavam os versos “This little light of mine, I'm gonna let it shine”. Por trás de toda aquela melodia estava o sonho de liberdade e igualdade. Aquele da retórica afiada do Dr. Luther King. A Felicidade estava traduzida nos sorrisos de todos, e a esperança naqueles olhos tão acostumados a derramarem lágrimas e a serem espremidos na reação involuntária da pálpebra em uma tentativa de proteção contra o sol voraz do Alabama.  

A velha senhora, de aparência sofrida e sentada lá no fundo possuía uma linda camélia em suas mãos, as mesmas que em tempos antigos já estiveram fortemente amarradas por dois dias e duas noites a um grande pinheiro em uma fazenda trinta milhas distante. Castigo por ser negra e ter adoecido seriamente enquanto havia trabalho na lavoura. A admiração das crianças na energia e talento do jovem músico no palco é quebrada quando de repente alguém comenta sobre as saborosas amoras-silvestres. Logo, todos aqueles pequenos estavam devorando a plantação atrás do Hope Saloon. 

Uma Boa terra, alguns animais corpulentos e outros nem tanto, também existia um riacho demasiadamente sereno. Os mais velhos batizaram aquele lugar de “Blessed Hill” – Colina Abençoada.

sábado, 13 de novembro de 2010

Garota Cervantes



Certa noite de meia lua, ela me fez refletir o quanto mudei sua vida, seus pensamentos, seus hábitos, seu cabelo, mesmo sendo estes tão pessoais.
Porém, seus elogios e reflexões amistosas nunca vinham sozinhos. Eram como belos cavalos brancos, ávidos de glória, e que blindados com sua armadura imponente disparam na frente das tropas carregando sobre eles os mais bravos guerreiros de espadas afiadas com o objetivo de causar o maior estrago possível na defesa do campo adversário, facilitando o restante do ataque.
Foi então que ao final de seus dizeres, com meu escudo já  ao chão, ela conseguiu me surpreender com a última parte do seu monólogo – suas reflexões finais são sempre as responsáveis pelos maiores dramas que já assolaram o meu pobre e suíço cotidiano –  desta vez ela se comparou á uma jubarte que sempre reinou sozinha em seu oceano, alimentando-se de milhares de peixes pequenos, mas que por algum motivo se sentiu atraída pela praia (eu), então vai em sua direção, e aos poucos percebe que está cada vez mais no raso, continua, mesmo sabendo que encalhará e não sobreviverá na areia (meus braços).
Completamente desconcertado beijo-lhe a face como quem se desculpa. Calado, sofri o resto daquela noite pela culpa que sua comparação, tão profunda e quixotesca, pretensiosamente me atribuiu.



 _
 Miguel de Cervantes foi romancista, dramaturgo e poeta espanhol. Sua obra prima, Dom Quixote.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Black Sky

-->

-Qual a cor do céu em inglês?
 Perguntou a  professora de doce expressão ao mesmo tempo em que levantava seu braço direito com um lápis na mão, numa tentativa de envolver os pequenos alunos em sua aula.
-Blue! Blue! Blue! Blue! 
Exclamavam em voz alta, todas as crianças com os braços ao alto. Sorriu a jovem mestre, pelo acerto unânime da classe.
-Black.. 
Sussurrou o único aluno que não tinha se manifestado instantes antes. Todos, inclusive a professora que mudara de expressão, desviaram seu olhares de quem julga para o canto direito da sala, especificamente ao garotinho sério de óculos redondos que sentava ao lado da grande janela, com um olhar despreocupado aos outros que ali estavam, mas que atravessava com vigor aqueles vidros sujos para admirar o céu de nuvens que realmente era azul e nada de preto tinha. De repente é disparado  o escandaloso sinal sonoro que alertava o fim da aula, quebrando a situação que tinha sido criada.
      A resposta "Black" não estava errada, durante a noite o céu realmente se torna escuro.  A imagem de céu mais representativa para o “garotinho sério de óculos redondos” não era aquele do azul ensolarado e com nuvens que a maioria das pessoas tem, sejam elas crianças de sua idade ou adultos maduros. Ele já entendia que todos preferiam o “Blue”, pois o céu do dia é mais simples, fácil e de forma nenhuma parece misterioso ou estranho, é apenas uma bela paisagem de tons claros e agradáveis. O seu céu mais interessante e mais real era o preto, com lua, estrelas e até mesmo estrelas cadentes que ele sabia que existia, mas que ainda não tinha visto. Toda noite antes de dormir, pela janela aberta do seu quarto, sentia o mistério do céu preto, e nesse momento ele se tornava grande, pequena era a noite para todos os seus pensamentos, a cada astro uma pergunta, não era para menos, afinal era um choque entre uma criança e o temido universo, que ocorria diariamente naquele travesseiro. Aquele escuro o atraía e enchia sua cabeça de dúvidas, ainda assim o menino tinha uma certeza, que por trás do brilho de cada estrela havia uma resposta.
      Anos depois aquele garoto tinha realizado seu sonho duplo, se tornou astronauta e viajou de verdade pelo espaço. Quando estava lá em cima fez questão de tirar uma fotografia em especial. Após voltar, a primeira coisa que fez foi enviar uma carta a sua antiga professora de inglês. A professora, hoje velha, mas de boa memória, quando recebeu a carta em mãos não lembrou de maneira alguma do remetente, assim abriu o envelope e achou uma grande foto na qual se via o planeta Terra bem pequeno e azul, e ao fundo ocupando quase que toda a foto  estava o preto do espaço, no verso da foto tinha os dizeres: “Querida professora, como a senhora pode perceber nesta imagem, o céu só é azul ao redor da Terra, mas em todo o infinito do universo ele é preto”. Ela então se lembrou do garotinho que foi seu aluno há muitos anos atrás, que respondeu “black” e que sentava ao lado da janela. Mais que isso, ela entendeu que enquanto a maioria das pessoas só consegue enxergar até onde seus olhos alcançam, outras vêem além, além do azul do céu. Lágrimas escorreram pela face daquela senhora ao mesmo tempo em que suspirava, deixou cair a fotografia, o experiente coração já não mais batia. Nesse mesmo momento o garotinho, hoje um adulto excepcional, estava deitado na sua cama e olhando o céu, como fazia todas as noites desde muito pequeno e de repente espantou-se ao ver pela primeira vez uma estrela cadente, que irradiava o preto daquela noite com a luz de sua cauda de fogo, então, na mesma hora que apreciava aquele momento tão esperado, com fé fez um pedido, e como um milagre o brilho dos olhos da sua antiga professora tinha voltado, junto com o pulso do seu coração.